22 Fevereiro 2010

variações 3



sambinha para Baudelaire



dura é a vida de qualquer compositor

sempre obrigado a achar a rima exata

para colocar em xeque aquelas trovas

que se esfarelam na dupla amor e dor



por isso esse sambinha bastante singelo

feito com muito mais que uma notinha só

não fica martelando na tristeza e no tédio

quer louvar aqui é a mescla de limão e gelo



pois nenhum cristão bom vai me negar

que tocar apenas a cuíca e o tamborim

para apaziguar as agruras do coração

é igualzinho que engolir sem mastigar



sempre faz falta acrescentar a cachaça

dar umas boas e fortes mexidas no copo

para exorcizar os comportados demônios

que buscam domesticar a senhora pirraça



o caolho Camero Martan costuma cantar:

para driblar as penúrias e mazelas da vida

nada melhor que se tornar um bom letrista

e rir da ralé dos que apenas simulam rimar



Gaudério Carioca
(letrista e folklorista)


12 Fevereiro 2010

variações 2

os pratos que alimenrtam



eu, fingidor de mim,
pastor de frases tortas,
domador de palavras indômitas
malabarista do verbo
e
bombeiro da minha própria letra
rindo aqui tributos

don Augusto, eu também vi quando despertou,
mas o senhor não percebeu,
estava atrás da sombra do dinossauro


don Gabriel, no livro meu nome não aparece,
quiçá porque não sabia de mim,
é que fui o último da família que saiu antes do vendaval


don Jorge Luis, eu também descobri o mesmo,
um ponto para captar todo o universo,
mas não posso revelar o segredo


seu Érico, quando do incidente em Antares tão comentado,
meu cadáver estava lá,
quero lhe reclamar que me inclua na lista


seu Machado, o senhor cometeu uma grave injustiça,
ninguém se conforma com isso,
o olhar da Capitu nunca foi oblíquo nem de cigana


seu João, conheço muito bem o sertão,
ele está em toda parte,
mas a estória do tal jagunço está mal contada


her Franz, como não falo checo nem alemão,
na ocasião não tive como lhe esclarecer:
meu nome não é Joseph K


her Thomas, passei muitos e muitos anos doente,
internado naquele sanatório,
porém jamais soube de um paciente com tal nome


monsieur Marcel, por aqui tem uns docinhos gostosos,
diria que muito mais que as madeleines,
quando os como só me lembro do tempo perdido


monsieur Gustave, o casamento da Ema foi um desastre,
comenta-se até hoje,
mas ninguém é culpado de acreditar no amor


Vacário Serrano
(letrista e antropófago)

02 Fevereiro 2010

variações 1



surpresas da vida


a vida esconde surpresas.

a realidade não é o que vemos.

muito menos o que aparenta ser.

é o que alguns entendidos dizem que é.

não interessa se você acha isso absurdo.

pois é.

um dia acreditei que o limbo existia.

os homens da fé acabaram com minha fé.

um dia acreditei que plutão existia.

os homens sem fé explodiram minha fé.

comecei a perder a fé.

até deparar-me com a terrível notícia.

agora quase não tenho mais fé.

com muita fé comecei a vida.

perdi o temor dos bosques escuros.

realizei titânicos e esgotadores esforços.

cheguei a ser herói de grandes façanhas.

explorei os lugares mais recônditos.

descobri as mais estranhas sensações.

fui sacudido por erupções vulcânicas.

participei com devoção em exóticos rituais.

tinha certeza que possuia as chaves do cofre.

mas agora parece que tudo era simples ilusão.

os sábios ingleses dizem que não existe.

os franceses que podem demonstrar o contrário.

hoje desconfianças ferozes atormentam meu corpo.

não sei se tudo o que vivi foi realidade.

ou foram fantasias fabricadas pela incauta fé.

porque sempre acreditei que ele existia.

só que Londres e Paris não concordam.

a ciência não consegue explicar bem a realidade.

por isso atormenta-me a mais trágica dúvida:

será que nunca atingi o glorioso ponto G?



Boca do Monte
(letrista e sexólogo)