18 Janeiro 2010

a vida como ela não é 3


vontade de coxambrar

era uma vez...
...um meliante safado que pelos idos de 1833 começou a fazer a história nacional do tal assédio sexual. seu nome merece ser bem lembrado para não ficar esquecido de maneira injusta nas gavetas de velhos arquivos públicos. a cousa pipocou quando o cabra chamado Manoel Duda, na manhã do dia 11 do mês da Nossa Senhora Sant'Ana, pelas plagas de Vila de Porto da Folha, Sergipe, ficou escondido na moita de um mato esperando que a mulher do Xico Bento fosse, como era seu costume de todo dia, para a fonte recolher água. o supracitado cabra quando a viu passar sahiu della de supetão e lhe fez a proposta de uma coisa que não se pode trazer jamais a lume aqui. então, como ella se negou, o maldito cabra abrafolou-se della, e, pior ainda, deixando as encomendas della de fora e ao deus dará. em verdade o safado não conseguiu fazer matrimônio porque ella muito berrou e acorreram em seu socorro o Correia e o Barbosa e prenderam o cujo em pleno flagrante. o juiz de direito da Vila, Manoel Pernancles dos Santos, nome que hoje é bem lembrado por ter feito jurisprudência, durante o agitado processo argumentou que somente elle, o marido della, é que podia coxambrar com ella e fazer chumbregâncias, por serem os dois muito casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana, com a bênção de deus. na hora de lêr os cargos também se lembrou que o cabra safado é um verdadeiro suplicante deboxado. nunca soube respeitar as boas famílias das vizinhas. elle também tentou fazer coxambranas com a Quitéria e a Clarinha duas mocinhas donzellas. o dito Manoel Duda é um sujeito tão perigoso que nada atenua a peringança delle. e mete medo até nos homens. foi o que juiz alegou. por todos os malefícios que fez recebeu dura sentença. ditada no 15 de outubro daquelle fatídico anno. teria de ser capado, capadura a machete, sendo seu carrasco o senhor carcereiro. depois veio a paz durante annos em Porto da Folha. porém, hoje as parateleiras judiciais da comarca estão recheadas de papeis que aguardam a leitura para iniciar os processos contra muitos outros cabras safados.
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R.R.R
(ensaísta cronista ficcionista poeta e escritor)
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14 Janeiro 2010

a vida como ela não é 2


para subir ao céu


era uma vez...
...um Padre que acreditava que para chegar ao céu era preciso, como mandam as sagradas escrituras, realizar boas ações no mundo vão e contar com a ajuda de bons resistentes e inflados balões. para executar as primeiras teve de reprimir certos impulsos naturais, fazer diversos e sofisticados malabarismos por aquilo das línguas nada celestiais, tentar seguir a risca os preceitos morais de não cometer alguns dos pecados capitais apesar de assistir televisão e navegar na internet, e, com muito esforço, não cair nas tentações mais terrenais que oferece a vida da noite, já que não dormia bem. com temor e respeito, um pensamento que o seduzia desde o tempo de seminário, ia dando conta do recado e se ilusionava com a idéia de que no dia certo estaria ao lado direito, como auxiliar próximo, daquele que tudo o determina no universo. a vida como filho do senhor estava bem encaminhada para conseguir no além a glória eterna. por isso, ao mesmo tempo de realizar suas ações devotas, começou a praticar o balonismo. antes de fazer vários cursos práticos visitou bibliotecas e páginas na web para ter o maior número de informações sobre a história e as técnicas de voar nesse tipo de engenhoca moderna. nos treinamentos iniciais exibia tal sabedoria e entusiasmo pela coisa que deixava muito constrangidos os instrutores. tornou-se logo um apaixonado absoluto das alturas e das belas paisagens aéreas. com linguagem bem inocente dizia que quando montava e decolava num balão se sentia no céu. um dia ficou tão emocionado ao passar por cima de uma festa infantil que teve a idéia nada divina de revolucionar o mundo do balonismo com sua própria invenção. queria como fosse entrar no livro dos guiness apesar de saber que a vaidade é uma das seduções diabólicas. levado pelo furor de ser o primeiro e de ver seu nome nas manchetes das notícias do mundo inteiro decidiu passar por uma loja de artigos para festa e comprar muitos e muitos e muitos balões de inflar. e outros quantos balões de hélio. guardou tudo em segredo até algumas semanas depois anunciar aos quatro ventos que iria voar. voar de um modo nunca visto, colorido e festivo, jamais imaginado. avisou a data do evento e prometeu dar um show de acrobacia técnica. num domingo de sol e atmosfera leve armou o que parecia ser um lindo enfeite para festa de criança. usou cordas de náilon muito finas para amarrar os coloridos balões que alguns fieis de sua igreja com paciência e cuidado inflaram. os olhos atônitos dos que se reuniram no lugar da decolagem se negavam a aceitar que o Padre cumpriria a promessa. tudo parecia uma loucura. antes da partida houve queima de fogos de artifício. jornalistas e repórters de meios e lugares bem diversos ali apareceram. a imagem ficou gravada. numa pequena cesta de mimbre feita por artesãos locais e puxada por um número infinito de balões o Padre foi subindo ao céu. que espetáculo único, indescritível. logo viriam as especulações pois o Padre não dava nenhum sinal de seu paradeiro. iria pousar a alguns kilômetros numa praia de areias finas. o tempo não deu trégua no seu implacável fluir e trouxe maus pressentimentos. se sofria a falta de notícias. foram acionadas logo a polícia e a aeronaútica. buscas e mais buscas. depois veio a fatal confirmação. o Padre tinha ido para o céu. o corpo jazia encima de uma árvore. o coitado não entrou no famoso livro. porém, recebeu a maior condecoração da AMB, Associação Mundial de Balonismo, e uma medalha post-mortem da AICN, Academia Internacional de Ciências Naturais. e a bênção de Deus, é claro.
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R.R.R
(ensaísta cronista ficcionista poeta e escritor)
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10 Janeiro 2010

a vida como ela não é 1


(depois de tantos versos ocos e cegos publicados aqui nós do letristas.top.club vimos a necessidade de oferecer aos leitores fantasmas algumas crônicas e narrativas de outros letristas que vão quebrar a rotina poética e nutrir o glorioso e famoso blog que com tanto esforço lágrimas e outras coisitas mais mantemos para orgulho pátrio das letras nacionais)
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o sonho dos panetones


era uma vez...
...um senhor que não acreditava no poder mágico da arruda e quando passava pelo mercado de verduras e temperos, pois, não conte a ninguém porque é segredo de estado, gostava de visitar lojas de panetone pensando no natal, o que fazia era fechar os olhos e o nariz para fugir, se dizia a si mesmo, do fedor de tal erva. mas com o passar inevitável do tempo, e já na feliz e feroz vida de representante do povo, o tal senhor se filiou ao partido dos que achavam que a existência se torna complicada sem a ajuda de um galho de arruda atrás da orelha. de tal modo que aos poucos foi se tornando o sr. dr. arruda para amigos copartidários e seguidores. esqueceu então o passado e o desprezo por tudo que fosse folha verde. participou depois de eventos que lhe renderam fama e o levaram ao foco dos holofotes. por uma ação infeliz e feroz e um gesto fatal se envolveu num complicado jogo de abrir mecanismos eletrônicos. por isso tomou férias na beira de um lindo lago e disposto a dar a volta por cima. por cima voltou sem fazer grandes escaramuças. até que por uma cruel conspiração palaciana terminou de novo na mira das lentes como traidor do povo. foi quando chorou e pediu perdão pelos pecados cometidos frente às câmaras digitais de fotógrafos e tvs. justificou-se afirmando que a falta da qual era imputado respondia a seu gosto pelos panetones. já que pretendia nas festas natalinas brindar aos pobres do planalto central com tal manjar para dar-lhes um pouco de alegria. seus inimigos chiaram. seus amigos calaram. mas no fim da história o senhor arruda confiante nos poderes mágicos da ervinha se benzeu e pediu que ocorresse o milagre de sair ileso do percalço pela ajuda miraculosa da arruda.
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R.R.R
(ensaísta cronista ficcionista poeta e escritor)
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