24 Dezembro 2009

varal poético III



Só o dom do caldo
Junto a esses abacates basta
E a gordura dos ossos
E as verdura duras
Para que saibam, Cosita, qual foi nosso fim.

Nessas paragens, lembramos a sopa antiga,
a abóbora campestre, o tomate verde e radiante.
Mas aqui só tomamos o que já foi
E o que comemos não existe.
Nossa ambrosia, o Leite
se apodreceu em parte
e pela agrura do engolido
nossa tripa se ressente ainda.

Sim, fariamos tudo para manjar,
inda que como escravos,
cozinhando miolos dia a dia
e eu expulsaria tudo o que traguei,
vomitaria tudo o que peidei.

Já sem corpos, inda comamos,
mas aqui no Trono
as caganeiras não se tocam.
ah, ter cruzado o portal terrível...
velhos ou jovens, felizes ou infelizes,
encontrando a sepultura
entre os bramidos e os esguichos do esfíncter, sem poeta
para grafar na face escura das águas
um dístico em nosso nome
sem caneta ou mão amada.

Vai, manda dizer, Cosita,
que estamos aqui
e oramos pela barrigas dos amigos.


****


No fundo negro:
Petróleo, e o chicotão nas mãos.
E a luz num só foco
De uma vela oculta,
Atrás de uma mesa segura,
Ilumina teus primeiros jorros.

E quando tua jovem mão
Acolhe no fecundo regaço
Teu grão de vida imensamente frágil,
Ela é amor infinito, e embaraço.
Pois teu corpo, ela sente, é algo de outro mundo.
O que fazer com ele
Que parece
Prestes a ganhar toda a vida
Ou perdê-la toda.
Esse Sèvres pequeno e quebradiço
Que ela apóia temerosa e sem jeito,
Como se insciente daquilo que a natura
Para toda criatura tornou evidente.

(Por isso soube o criador
Colocar-lhe ao lado
A outra mão que lhe ensina,
Dedos apertados, responsáveis,
A firmar nos braços imaturos
O precioso embrulho.)


****


Só no inconstante,
os ais.
Ao léu,
o tormento.

Na volúvel corrente da idade,
tudo sobe
com séria gravidade
já rumo ao inevitável
concluimento.
Como o Salmão
acha em si
um novo alento,
quando,
contra a potente
correnteza
busca onde depositar
sua proeza
que o levará enfim
à sua extinção
e depõe
num impulso
o fértil grão,
queimado pelo ardor
da safadeza.



Laurêncio Ramos Olmos
(Poetastro e tradutor)

06 Dezembro 2009

varal poético II



NO COMEÇO ERA O VERBO

DEPOIS FORAM AS FLORES

A SEGUIR O VINHO E A MÚSICA

NO INTERVALO OS DESEJOS E SUSPIROS

LOGO O TORMENTO DE OLHAR O CELULAR

E OS INFINITOS TORPEDOS PERDIDOS

AGORA ME CONFORMO COM SUA FOTOGRAFIA

SEI QUE SANTO ANTÔNIO SE APIEDARÁ DE MIM


***


por que não respondes minhas mensagens?

a telepatia é um dom que não possuo

as pombas correio foram exterminadas

os sinais de fumaça são coisa de índio

a linguagem dos sinais é para os mudos

e as cartas escritas ficaram perdidas no tempo



não vou insistir mais porque tenho coração firme

sei que um dia me verás nas páginas da web

e será tarde para tentar qualquer desculpa

porque terei me convertido na delicada imagem

que perturba o sonho dos que navegam solitários

na busca de sua virtual e sedutora alma gêmea



***


meu espírito romântico é feito de ilusões

algumas eu compro com cartão de crédito

ao abrir cada dia meu mail e receber ofertas

outras as encomendo sem ter de me deslocar

por ruas avenidas lojas shoppings ou feiras

umas poucas consigo e realizo com só apertar

certas teclas que tenho a disposição

para meu secreto e total divertimento



***

Tatá Borba
(Vidente, dançarina e pintora)

04 Dezembro 2009

varal poético I


minha garçonnière de papel que eu cuidava
em segredo e com infinito esforço cada dia
foi varrida pelo espírito que converte tudo
em bytes sob a fugaz aparência de uma tela
agora estou exposta nua com a porta aberta
para exibição pública e sem cobrar ingresso

podem entrar com a condição de não tocar
e abster-se de olhares pecaminosos e vorazes



***


sai pelo mundo com minha sombra secreta
a que me recorda de manhã quem sou eu
para buscar e encontrar a outra de mim
que se perdeu nos labirintos do espelho
quando foi atrás da que não deu um passo
fora porque sou uma casa escura e vigiada
sem telefone fixo celular ou internet

quem tiver alguma notícia favor avisar
terá uma alucinante recompensa


***



Diário íntimo:
4 de dezembro
8 horas e 32 minutos
estou sozinha e sonho
olhando a tela plana
que me convida a falar
mas não sei o quê dizer
porque me perturba o teclado
e esqueci meu alfabeto


só resta me refugiar
no mais ensurdecedor silêncio
do meu blog na web
espirituosa.blogspot.com


***

Luzitta Piave
(Astróloga, surfista e letrista)