
Só o dom do caldo
Junto a esses abacates basta
E a gordura dos ossos
E as verdura duras
Para que saibam, Cosita, qual foi nosso fim.
Nessas paragens, lembramos a sopa antiga,
a abóbora campestre, o tomate verde e radiante.
Mas aqui só tomamos o que já foi
E o que comemos não existe.
Nossa ambrosia, o Leite
se apodreceu em parte
e pela agrura do engolido
nossa tripa se ressente ainda.
Sim, fariamos tudo para manjar,
inda que como escravos,
cozinhando miolos dia a dia
e eu expulsaria tudo o que traguei,
vomitaria tudo o que peidei.
Já sem corpos, inda comamos,
mas aqui no Trono
as caganeiras não se tocam.
ah, ter cruzado o portal terrível...
velhos ou jovens, felizes ou infelizes,
encontrando a sepultura
entre os bramidos e os esguichos do esfíncter, sem poeta
para grafar na face escura das águas
um dístico em nosso nome
sem caneta ou mão amada.
Vai, manda dizer, Cosita,
que estamos aqui
e oramos pela barrigas dos amigos.
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No fundo negro:
Petróleo, e o chicotão nas mãos.
E a luz num só foco
De uma vela oculta,
Atrás de uma mesa segura,
Ilumina teus primeiros jorros.
E quando tua jovem mão
Acolhe no fecundo regaço
Teu grão de vida imensamente frágil,
Ela é amor infinito, e embaraço.
Pois teu corpo, ela sente, é algo de outro mundo.
O que fazer com ele
Que parece
Prestes a ganhar toda a vida
Ou perdê-la toda.
Esse Sèvres pequeno e quebradiço
Que ela apóia temerosa e sem jeito,
Como se insciente daquilo que a natura
Para toda criatura tornou evidente.
(Por isso soube o criador
Colocar-lhe ao lado
A outra mão que lhe ensina,
Dedos apertados, responsáveis,
A firmar nos braços imaturos
O precioso embrulho.)
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Só no inconstante,
os ais.
Ao léu,
o tormento.
Na volúvel corrente da idade,
tudo sobe
com séria gravidadejá rumo ao inevitável
concluimento.
Como o Salmão
acha em si
um novo alento,
quando,
contra a potente
correnteza
busca onde depositar
sua proeza
que o levará enfim
à sua extinção
e depõe
num impulso
o fértil grão,
queimado pelo ardor
da safadeza.
Laurêncio Ramos Olmos
(Poetastro e tradutor)

