02 Setembro 2009

folha de poesia 3


SONHO



queria ser poetisa marginal

rabiscar versos radicais com imagens periféricas

e palavras cheias de furor favelado e popular

consultei meus amigos sábios e ilustrados

para descobrir a misteriosa chama da linguagem

ou os segredos do dissoluto ritmo original

mas eles só entendiam de teorias sofisticadas

e de discursos que provocam dores de cabeça

a quem por desgraça não sabe mais que soletrar

fiz então cursos de letras atrás da rara sapiência

sentada em cadeiras duríssimas e chatas de agüentar

para escutar doutores cheios de títulos e diplomas

que não tinham noção do que é a matéria substancial

parti então para consultar oráculos bruxas e videntes

sob a crença firme de que eles sim me podiam ajudar

a encontrar os segredos para articular o verbo essencial

porém só gastei grana e sapatos na caminhada horrorosa

por uma cidade sem beleza nem glória digna de festejar

aturdida com meu desejo e a ponto de renunciar

tomei a decisão de visitar tudo quanto é terreiro e igreja

na busca última de meu destino de artista do signo virtual

só que tive de pagar o dizimo e as velas para os orixás

o que me deixou sem vontade de seguir o caminho

já metafísico para achar o que tanto queria decifrar

até que um dia tropecei com o poeta Camero Martan

num boteco da vida famoso por sua cachaça e lingüiça

quem me disse sem maiores delongas ou subterfúgios

que sem experimentar a miséria e violência congênitas

jamais se pode chegar a ser uma autêntica poetisa marginal



Letrista: Nina L. Tenúcia
(Ilusionista e Samaritana)